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Comentário de Sandra Maria Rodrigues Ferreira em 29 maio 2009 às 11:38


DENTRO DO SENTIR

Entro em mim: despe-me a Noite. Toma conta de mim: leva-me. São palavras nuas: com sabor. São versos soltos: melodia de pintor. Rasgam-se os sentidos: provocações – dentro de mim – dor. Um vestido preto: chão de luto. Um par de meias gasto: tempo que passa. Peças íntimas: confidentes do querer; irmãs do desejo: o mesmo que rasga o vestido e rompe as meias. Paixão. Uma réstia da última paixão: quente. Desejo ardente como a lava de um vulcão: rebentam ondas de lume – é fogo, calor; perdição. Não há paixão: antes perdição. Quente. Tão quente: cresce um sentimento em chamas que jamais corpo algum pode apagar.
Paixão: veste mal fabricada, tez falsa; amor imperfeito – frívola plenitude: engano do Ser. Ilusão do Sentir.
Apaixonou-se a Alma. Prendeu-se ao mortal Sentir: nada mais há a fazer: resta viver, resta querer. Um manto de corvos negros invade a candura da nua. Alma parada, esparramada no chão: leito dos desejos – onde vivem os mortais.
- “Foge Alma: não posso viver. Vai. Devolve-me o frio: sinto-me a desaparecer.” – Voz da sorte sem autor. Simples voz: sem eco. Parada. Sem dono: ninguém a ouve. Só o calor. Sempre o calor. Tanto calor. Isto não é o Amor. Tudo o que não existe: não é Amor.
Desejo: veste dos seres finitos, imperfeitos – frivolidade do Ser.
Afasto as paisagens imperfeitas como virgens com fome de Sentir. Apago as estrelas: fecho os olhos – sempre com o aperto no peito: existir?
Amor: tez natural dos seres infinitos, perfeitos – plenitude do Sentir.
Existir? Partem corpos mal amados: sonhos quebrados. Fitas de cetim por enlaçar. Abraço o que não existe: toques, beijos, ternura – tanta doçura – eu perdida sem Ser. Existir? Abrir os olhos que fechei para que a Noite me despisse. Abrir as cortinas: fechadas pelo Dia em mim – aqui dentro – no peito: assim. Existir? Só existo quando Sou pobre: caminhante sem rumo. Quem tem desejos não existe: não é. Não ama. Se amas: és – existes para alguém. Sem possessão, sem Sentir: onde a nudez é a tez do Amor – olhar para além do ver. Existir? Viver no outro, sem deixar de Ser. Só quem existe: ama – sem desejos: devagar. Com as mãos da Ternura: os olhos do coração.
A Alma nunca se apaixona, nunca deseja. Ama: sem existência. Por isso lhe desconhecem as vestes: não precisa – delas para existir. Toda a nudez pertence á Alma: gestos, toques, olhares: sedução de quem se atreve á Alma uma só consoante tirar: despindo-a para o nobre sentimento: Amar.

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