-Fica mesmo em cima da praia!”- garantia-me a voz do outro lado do telefone. – Se é sossego que procura, este apartamento é o ideal! Bons acessos, próximo de vários restaurantes e supermercados… Um fim-de-semana ideal para uma família com filhos, e o preço é inacreditavelmente acessível!
Decidir passar um fim-de-semana alargado com 4 filhos é, já em si, uma aventura. Contas feitas à crise e depois de garantir que tirando um bocadinho aqui, outro ali, conseguimos pôr de parte o suficiente para gasolinas, portagens, dormidas, comidas e alguns extras (que normalmente consistem em idas a farmácias para o inevitável menu de degustação das últimas novidades em anti-piréticos, analgésicos, pomadas para picadas de insectos, cremes para escaldões, pensos rápidos, desinfectantes, etc.)… depois das contas feitas, dizia eu, começa a saga das bagagens: Três dias são, para uma rapariga adolescente, uma eternidade onde há que prever uma infinidade de combinações possíveis de tops, calças, saias, casacos, t-shirts, fitas, brincos, colares, sapatos, botas, havaianas, para além de todo um arsenal de maquilhagens, secador, escovas, cremes anti-borbulhas, perfumes e sabe Deus mais o quê. Se em vez de uma adolescente tivermos duas… o drama toma proporções de verdadeira insanidade, a que ainda se acrescentam viola (imprescindível), livros de estudo (impressionam sempre os pais, mesmo sem saírem da mochila) e alguns livros para ler (ficam sempre bem nas mesinhas de cabeceira). Já nesta altura, só uma bagageira sem fundo comportaria tal volume.
Pensava eu com alívio que os rapazes são mais simples…antes de ver a bagagem do meu filho. Não me ocorreu que fosse vital para a sua sobrevivência e para evitar um suicídio anunciado, levar uma prancha de bodyboard, uma de skimming, a bola de rugby e a playstation “para se estiver a chover…” (A bicicleta foi chumbada, apesar dos protestos veementes.).
E para cereja em cima do bolo, a mais nova, do alto dos seus 8 anos, declarou que se recusava a deixar em casa o seu urso de peluche – animal de proporções consideráveis - sob pena de ficar com um inultrapassável trauma de infância (dela e do urso)!
Depois de tudo isto (e do nosso ínfimo saquinho) miraculosamente comprimido e encaixado num carro à beira da explosão – e logo que ficou resolvida a discussão dos lugares (“Eu é que vou à janela!”, “A última vez foste tu!”, “…mas eu enjoo”, “mas tu comeste a última bolacha do pacote a semana passada e eu fiquei sem nenhuma!”,”Eu nasci primeiro!”, “Tu és rapaz tens de dar lugar”…) lá nos metemos à estrada rumo ao fim-de-semana ideal para o repouso de uma família com filhos, esperando entrar num pedaço de céu.
Duas horas e tal de purgatório volvidas, ( “Já chegámos?”, “Quanto é que falta?”, “Falta muito?”, “Ponha música… Essa não!”, “Ela pisou-me!”, “Tu tens mais espaço!”, “Pára de me apertar!”, “Não cantes, deixa ouvir!”, “Ele está com o cotovelo no meu ombro!”…) chegámos ao paraíso prometido.
Não queria acreditar. Um labirinto de placas amarelas a dizer “Desvio”, cumpriam a sua missão desviando-nos teimosamente da rua do nosso destino. Perguntámos: Que não, que não se podia ir para a rua marginal, que havia obras. Que estacionássemos já ali e depois só tínhamos de andar uns 600 metros.
Confesso que o sorriso de pais benevolentes que tínhamos tentado manter até ali, se deve ter parecido mais com um esgar nervoso ao voltarmos a olhar pelo retrovisor, para avaliar o peso da nossa bagagem… Mas respirámos fundo e animámo-nos mutuamente com a promessa de um belo fim de tarde na nossa varanda com vista para o mar, a ver o voo das gaivotas e a ouvir o barulho das ondas na areia.
Carregados como uma família de beduínos em migração, avançámos penosamente por ruas totalmente esventradas, tentando evitar crateras profundas, ferros de aço espetados no chão, montes de pedras e de areia. Uma vez emergiu à nossa frente, vinda das profundezas de um qualquer esgoto, uma cabeça com capacete amarelo que gritou qualquer coisa como “Ó pá! Passa aí o balde, mer(…)! Como não tínhamos balde, deduzimos que não seria para nós e seguimos.
-Ainda bem que o nosso apartamento fica mesmo em cima a praia! Assim não somos afectados pelas obras…- disse eu optimista, à medida que sentia adensar-se o silêncio de toda a família.
-Mãe… pai… a rua acaba aqui!... Será que aquela é a marginal?
Perante os nossos olhos atónitos, erguia-se uma nuvem de poeira que quase encobria o que mais parecia um cenário de guerra: Buracos, tábuas, ferros, terra e mais terra, montes de pedregulhos, outros de pedras de calçada, retro- escavadoras com gigantescos braços jurássicos que afanosamente afundavam e se erguiam e baixavam e rodavam numa fúria destrutiva desconcertante e sobretudo (mesmo sobre tudo o resto) um barulho ensurdecedor de martelos pneumáticos que calcavam o chão ou furavam pedra, arrastando atrás de si tremelicantes operários que os tentavam domar, aparentemente sem êxito. Por detrás de tudo isto, o azul intenso do mar e uma hesitantes ondinhas que mal se atreviam a rebentar na areia…
Pode não ter sido o fim-de-semana ideal, num apartamento em que o esquentador não funcionava, a altura mínima de pó em todas as superfícies era de 5 mm, a vista da varanda (um r/c) alternava entre o amarelo das escavadoras, o cor de laranja dos coletes reflectores dos operários e uma duna de pedregulhos que só deixavam vislumbrar uma nesga de mar. Mas na nossa família temos a sorte de nos “pelarmos” por uma boa piada. E esta era boa demais para ser verdade! Foram três dias hilariantes, diferentes e que criaram momentos de união preciosos na nossa família. Talvez tenha sido O fim de semana da minha vida! Estava a brincar. Para a próxima vamos para um Hotel.
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