1. O Gustavo sofre, desde há 40 anos, de uma vulgar perturbação orgânica que, todavia, com o avançar dos anos, foi-lhe criando uma série de incómodos e até mesmo alguma incapacidade funcional. Ele queixa-se de frequentes palpitações.
Até aqui, nada de extraordinário pois é uma "moléstia" que praticamente toda a gente sofre com maiores ou menores sintomas, sobretudo em situações de stress. Mas no caso do Gustavo essas palpitações chegam a aparecer com uma frequência na ordem das 500 a 600 vezes por dia. O curioso é que, aparentemente, não há motivos para tantas palpitações. Consultados vários médicos e feitos vários exames concluiu-se que se tratam de extrassístoles supraventriculares, umas contrações extras do coração que, embora sejam benignas, são muito incómodas para o Gustavo pois ele sente-as todas (e, por causa disso, vive num sobressalto constante pois cada extrassístole parece-se com uma brevíssima paragem cardíaca e o pobre coitado vive em pânico).
Não há cura conhecida. Geralmente os médicos receitam tranquilizantes ou medicamentos que fazem descer a pressão arterial e o ritmo cardíaco. Em casos mais severos poderá tentar-se uma pequena cirurgia, a colocação de um pacemaker e pouco mais. No caso do Gustavo, os betabloqueadores, que fazem descer a tensão, estão desaconselhados pois a dele está dentro dos valores normais. Por outro lado, esse tipo de medicação nem sempre funciona nas palpitações.
Sendo o Gustavo uma pessoa com um coração sadio, anatomicamente perfeito, sem colesterol nem pressão alta, sem outros problemas de saúde, tem a garantia (?) de que não irá morrer das tais palpitações. O problema é que...
...o Gustavo está a levar uma vida cada vez mais isolada e inibida. Sendo um homem de meia-idade, começou a viver sob tensão e medo há mais de 30, quando sofreu a primeira crise. O seu emprego está agora por um fio e o casamento está a ressentir-se, pois as crises começaram a ser cada vez mais frequentes. No emprego as palpitações aparecem em qualquer momento de stress. O coração entra numa estranha arritmia e ele tem de afastar-se para qualquer canto. No casamento, as relações sexuais terminaram porque a excitação e o simples esforço físico nos momentos de intimidade desencadeiam crises. O desânimo e a depressão instalaram-se no Gustavo.
Seguindo os conselhos médicos começou a fazer caminhadas, a experimentar a prática do relaxamento e a distrair-se. Toma um vulgar tranquilizante apenas para controlar a ansiedade. Curiosamente, nas últimas semanas, as palpitações quase desapareceram entre as 8 da manhã e as 8 da noite. Curioso este padrão. Mas, será um sinal de melhoria?
Não. Elas regressam em força a partir do início da noite, mesmo que o Gustavo esteja carregado de tranquilizantes e hiper-relaxado. Mas se for ao cinema, ao teatro ou simplesmente dar uma volta num shopping, é raro as extrassiostoles aparecerem nessas horas. Sentado em casa a ler ou a ver televisão....lá estão elas de volta. Estranho! E, obviamente, se pretender fazer amor com a sua esposa, o coração vai traí-lo, disparando palpitações incontroláveis (nessas ocasiões, ele, que tem uma pressão arterial dentro dos valores médios, pode vê-la subir para uns perigosos 220/120, situação que já o levou a correr às urgências 4 vezes nos últimos 12 meses). O problema está na personalidade do doente ou na sua "doença"?
As conclusões dos vários médicos consultados, perante todos os exames que já fez, alguns em plenas crises, insistem que se trata de uma situação benigna e que o meu amigo não vai morrer daquela estranha maleita.
Ora bem, não irá morrer daquilo mas ele está a ficar com uma qualidade de vida péssima. Não faltará muito para perder o emprego e quanto ao casamento não sei se terá futuro pois a esposa está convicta que o seu marido tem é "macaquinhos na cabeça". Mau sinal.
2. Finalmente, apareceu um cardiologista inteligente e expedito. Não quis saber tanto do coração do Gustavo como da sua psique. Analisou a personalidade do seu "doente" e concluiu que as suas extrassistoles são o resultado de uma constelação de factores como o temperamento, a história de vida e uma ansiedade generalizada (constante) que o atormenta desde a infância em que a pressão e o medo gerados por um pai autoritário e severo se instalaram na sua "amígdala" (uma pequena área do cérebro que regista as memórias emocionais).
Parece que o problema do Gustavo não é pois de natureza cardíaca (orgânica) mas antes funcional e com origem no sistema nervoso autónomo (muito conectado com as emoções e o coração) em resultado de uma experiência de vida menos boa que o afectou em criança e que agora, em adulto, poderá determinar o resto dos seus dias caso não consiga alterar uma série de aprendizagens instaladas ao longo dos anos (medo, ansiedade, etc.).
3. Escrevi esta crónica porque o Gustavo telefonou-me há dias, eufórico, para dizer que conseguiu estar 48 horas sem palpitações. Um verdadeiro milagre, para ele! Perguntei-lhe se saberia explicar o motivo. Respondeu-me que passou a tomar uns suplementos naturais que aliviam (sem baixar muito) a tensão arterial e que em vez de se sentar a ver televisão à espera das extrassistoles brinca com os filhos ou então vai dar uma voltinha ao bairro onde mora.
Não me convenceu. Parece-me que o Gustavo está, sim, a fazer algo mais promissor e certeiro: está a esforçar-se por acreditar que não é doente cardíaco; que, de facto, não morrerá de ataque cardíaco; e que, sobretudo, deve "limpar" as suas memórias emocionais orientando os seus pensamentos para actividades que o entusiasmem, o absorvam e o façam viver com tranquilidade, olhando para o futuro. As palpitações irão certamente continuar a diminuir de frequência e intensidade.
São milhares as pessoas que vivem assustadas com as suas "extrassístoles" e surtos de arritmias benignas devidas a palpitações descontroladas provocadas pelo stress, as tensões e um psiquismo hipervigilante. Acontece que, quando elas vivem o problema de forma tão atenta e assustada, criam um estado emocional que alimenta novas crises. A solução para este tipo de perturbações estará, em muitos casos, nas mãos dos próprios "doentes" desde que os médicos não se contentem em dizer: "caro senhor, isso não é nada, não se preocupe". Algo mais devem dizer e fazer.
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