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Uma questão de “mais valia”…
A SPAL começou a fornecer porcelanas à TAP nos inícios da década de 70.
Fornecer peças de porcelana à transportadora nacional era , ao tempo, bastante prestigiante e a empresa de Alcobaça fez um grande esforço para conseguir entrar numa área onde a “Vista Alegre” tinha até então
dominado sem concorrência.
A TAP era um cliente muito importante e como responsável de vendas pelo Mercado Nacional visitava com frequência o seu Departamento de Compras. Os anos conturbados da revolução de Abril levaram a
grandes mudanças nos “meus” contactos na Empresa e, depois de algum tempo de
indefinição, tentámos conhecer e chegar à fala com funcionários de nível
superior. A história que vamos contar ter-se-á passado no final da década de
70.
A SPAL fornecia então à TAP cerca de 50.000 contos/ano (250.000 euros na moeda actual) e julgávamos nós que já tínhamos “estatuto” para ser recebidos pelo Director Comercial da Empresa.
Depois de muitas tentativas lá conseguimos a marcação de uma entrevista com o mais alto responsável de compras da TAP
Entrámos no seu gabinete cerca das 11H30 (eu e o Administrador da SPAL, responsável pelo área comercial, sr.José Bento Jordão).
O Director da TAP mostrou-se simpático mas passado pouco tempo percebemos que perante alguns fornecedores, nomeadamente os da área de combustíveis, que
facturavam milhões, éramos mesmo pequenos, muito pequenos.
Depois do “tema comercial” e dado que não havia “pendentes” por resolver a conversa passou a outros temas generalistas.
O Director da TAP costumava passar férias em São Martinho do Porto,na região de Alcobaça, facto que deu para uns bons minutos de conversa.
Dada a importância do nosso interlocutor não tínhamos qualquer pressa em sair e novos temas foram abordados.
Por volta do meio-dia e meia o Director da TAP falou dos tempos complicados do PREC e das negociações com representantes dos Sindicatos da Empresa que demoravam horas e mais horas.
Era até cair para o lado.
O nosso interlocutor confidenciou-nos que, por motivos de saúde(diabetes !?), entrava em “dificuldades” quando não comia a horas certas…
Numa dessas intermináveis reuniões em que, "em nome" da TAP, “enfrentava” representantes de diversos Sindicatos começou a sentir mal disposto.
A discussão arrastava-se e andava-se “à roda” sem se conseguir sair do mesmo sítio. Então o Director pediu a palavra. Fez-se finalmente um tempo de silêncio.
Disse:« No ponto em que estamos é… uma questão de mais valia!»
Os sindicalistas olharam-se perplexos e mandaram avançar para a “mesa” um especialista em “mais valias”…
O Director da TAP e nosso interlocutor nem o deixou sentar.
«O que quero dizer na minha é que mais valia …ir almoçar!»
A tensão da reunião “baixou” de imediato e, ao fim de muitas horas houve finalmente alguns sorrisos à volta da mesa de reuniões…
Por acaso, ou talvez ou não, quando o nosso interlocutor olhou para o relógio ,fizemos o mesmo. Era meio dia e meia hora.
Despedimo-nos agradecendo toda a atenção que nos tinha sido dispensada.
Saímos das instalações da ANA e como Alcobaça estava a uma hora de distância …“mais valia” almoçar em Lisboa.
Foi o que fizemos.
Nos anos seguintes - na minha vida comercial e não só - muitas vezes utilizei esta “boutade” da “mais valia”…
E não é que resultou sempre !?
JERO
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