
A vingança serve-se fria…
Na região de Sever do Vouga o Inverno não se vai embora às primeiras…
Ainda havia neve na “Cabreira” e o “Teixeira” roncava…
Belmira (nome fictício) aquecia-me junto à lareira da cozinha da casa dos pais e escrevia mais uma carta ao seu namorado, que cumpria serviço militar no Quartel de Viseu.
Estávamos em 1955.
Namoram há 3 anos e meio…Logo que ele saísse da tropa casariam...Pensava a Belmira!
O pai trabalhava de sol a sol nas suas terras de Rocas do Vouga e não se metia no assunto. Tinha mais em que pensar..
Um dia apareceu-lhe o António. Era filho de uma família com muitas terras na região. Já passara dos 30 e era um homem feito mas não “bem-feito”.Por outras palavras era ,aos olhos das raparigas da aldeia, feio como os trovões.
Pediu respeitosamente ao pai da Belmira para falar de um assunto. Assunto sério: queria casar com a filha. O pai da Belmira ficou de lhe dar uma resposta.
…
Conheci a Belmira há poucos dias. Mais propriamente no último mês deste ano. Dezembro de 2009.Ia acompanhado de um primo da Belmira, que me tinha acabado de mostrar as belezas da região de Arões. Couto Esteves. Cerqueira e a sua anta de corredor, Catives, Mouta, Covões e pequenas igrejas, bem cuidadas e limpas. Nos intervalos de algumas chuvadas e aguaceiros descíamos e subíamos vales, com os roncos do Rio Teixeira por perto. A Serra da Cabreira adivinhava-se ao fundo mas mal se via devido à neblina.
Num curva de uma estrada estreita entre pinheiros e eucaliptos avistámos uma casa de primeiro andar, junto de alpendoradas com os vinhedos próprios da região. O meu amigo da vida militar, que fazia de cicerone, lembrou-se que naquela isolada região vivia uma prima e fomos visitá-la.
Curiosamente a Belmira, sozinha em casa e sem estar prevenida da visita, recebeu-nos sem problemas e sem qualquer receio aparente, embora não tenha reconhecido à primeira o seu parente Caetano (nome fictício), que já não via há tanto tempo.
Percebi facilmente que a velha senhora gostava de conversar e dei-lhe “guita”.
Quantos anos me dá?
Com alguma delicadeza disse-lhe que devia estar na casa dos sessenta.
«Não senhor. Tenho mais uns tantos.»
Já tinha feito 74. Vivera dez anos em França, tinha 4 filhos e já enviuvara há alguns anos atrás.
E contou-me a história do seu casamento que afloro no princípio da narrativa. Em poucas palavras contou-me tudo. Ou quase.
O seu casamento fora feito pelo Pai .
Namorava há 3 anos e meio (o pormenor do meio ano foi bem acentuado) com um rapaz de Irijó que andava na tropa em Viseu. Apareceu um pretendente que falou com o seu Pai.
Era 14 anos mais velho mas tinha terras, muitas terras.
O militar era bom rapaz mas era, aos padrões do tempo e da região, um pobretanas.
Quando o Pai lhe deu conhecimento do interesse do António não foi por meias palavras: «Acabas e acabas mesmo.»
«Mas senhor meu Pai eu gosto dele…»
Chorou amargamente mas teve que ser.
Quem mandava era o senhor seu Pai…
Escreveu uma carta para o Quartel e acabou com o namoro.
«Por favor não me escrevas mais nem me procures que o meu Pai quer que eu case com outro…».
Casou com o pretendente do Pai depois de 8 meses de namoro.
O António tinha muitas terras mas tinha um casa muito pequena e sem confortos nenhuns, que só conheceu na noite do dia do casamento. Passou muitas noites –e dias – a chorar.
Não é preciso perguntar se teve uma vida feliz porque a Belmira diz muito -em alguns silêncios - da sua conversa . Sou um desconhecido mas estou com um seu primo.
Portanto posso fazer perguntas e a Belmira responde sem embaraço.
«E sabe o que é aconteceu ao seu namorado da juventude?»
-Casou com outra e vive na região de Lisboa.
Os olhos ainda lhe brilham quando fala dele…
O homem, o António, dono de muitas terras…há muito que está enterrado.
Recusámos um cálice vinho do Porto e fomos a nossa vida.
A Belmira lá ficou sozinha à distância de mais de meio quilómetro da casa mais próxima .
…
Algumas horas mais tarde em caso do Caetano puxei a conversa, referindo a impressão que me tinha causado o isolamento em que vivia a Belmira.
Estava presente uma criada da casa, que entrou na conversa sem qualquer rebuço.
Mais nova mas também viúva mas que vive no lugar de Irijó, naturalmente mais povoado
A criada do Caetano 10 anos mais nova diz que a Belmira de vez quando tem visitas. Vão e vêm-se. De táxi. Estão por lá umas horas …
«Oh senhor não tenha pena dela.»
Custou-me um bocado a ouvir o final da história mas …é a vida.
O namorado dos verdes anos da Belmira está afinal tão longe!
E casado com outra..
E se a “mão de obra” local resolve a solidão …
Quem é que disse que não há vida depois dos 70!
«Acabas e acabas mesmo.»
Isso era dantes…Senhor Pai.
A vingança serve-se fria…com os roncos do “Teixeira” lá ao fundo.
Digo eu…que não sou de intrigas.
JERO
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