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Ricardo Monteiro

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Gazela Comentário de Gazela em 12 março 2009 às 12:32
Vou querer acompanhar o evoluir desta Universidade da Criança, e acho que podemos e devemos ir adicionando o que tivermos sobre as mesmas. Da minha parte aqui fica um texto que me enviaram sobre a definição de saudade, feita por um anjinho de onze anos:

Depoimento de um médico oncologista do Recife.




No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar


crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho


ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem


e nos surpreendem com suas maneiras simples e diretas de ver o mundo,


sem meias verdades.





Nós médicos somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que não o


somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem


dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer


desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além.


Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e


prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos






à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos


impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer


nossos limites!





Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei


meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a


freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria.


Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes,


particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta


terrível doença que é o câncer.





Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao


ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por


mim.





Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém


por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames,


manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos


programas de quimioterapias e radioterapia.





Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas


não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas


vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela


entregava o bracinho à enfermeira e com uma lágrima nos olhos dizia:


faça tia, é preciso para eu ficar boa.





Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo


sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta


que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.





Meu anjo respondeu:





- Tio, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondida nos


corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade


de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta


vida! Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem


seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:





- E o que a morte representa para você, minha querida?





- Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama


do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa


própria cama não é?





(Lembrei que minhas filhas, na época com 6 e 2 anos, costumavam dormir


no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)





- É isso mesmo, e então?





- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos,


nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa


cama, não é?





- É isso mesmo querida, você é muito esperta!





- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu






Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!





Fiquei "entupigaitado". Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com






o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento


acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei


parado, sem acção.





- E minha mãe vai ficar com muita saudade minha, acrescentou ela.


Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço,


perguntei ao meu anjo: - E o que saudade significa para você, minha


querida?





- Não sabe não, tio? Saudade é o amor que fica!





Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição


melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor


que fica!





Um anjo passou por mim...





Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra,


do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo


que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto


relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.





Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição,


vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de


grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou


a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus


doentes, a repensar meus valores.





Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela


a quem chamo "meu anjo, que brilha e resplandece no céu. Imagino ser


ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.





Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que


ensinaste, pela ajuda que me deste.





Que bom que existe saudades! O amor que ficou é eterno.





Rogério Brandão





Médico oncologista clinico





RC Recife Boa Vista D4500





Cremepe 5758"
 

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