E roubados pois, para quem não tem coragem para escrever algo de original, pode sempre transcrever, desde que citando a respectiva fonte.
Eu vou-me lançar com "A Carta" de Manuel Alegre, cujos textos me alegram sempre tanto!
Comecei muitas vezes uma carta que nunca cheguei a mandar. Pegava na caneta e escrevia, era um impulso, algo que vinha de dentro e me obrigava a começar uma carta, não sei ao certo para quem. Talvez fosse uma carta para ti, aquela que, bem vistas as coisas, foi sempre a destinatária de tudo o que fiz e de todas as cartas que nunca foram para o correio.
Agora senti o sopro outra vez , parece o respirar de Deus ou do Diabo, é uma cadência, não propriamente música, uma cadência de palavras. Ela está aí, a carta, a urgência de um recado, ou talvez nem sequer, abrir o caderno, pegar na caneta, escrever. Se calhar é isso: escrever por escrever. Uma carta para ti, ou talvez para ninguém, ou talvez para mim. Para quem se escreve, afinal? E porquê?
Não sei. Só sei deste impulso, uma corrente magnética por dentro do corpo, uma cadência interior, uma leve, imperceptível tremura na mão.
O pior é esta dor do lado direito, a dor, o sangue, a sensação de estar a escorregar dentro de mim mesmo. É possível que a bala tenha atingido o pulmão. Começo a ter na boca um sabor a ferro, não tenho senão um aerograma, por acaso é o último, estou algures no mato encostado a um velho tronco, não há ninguém à minha volta, sou o último soldado de uma guerra esquecida, perdida no tempo. Não sei de onde veio o tiro, todos os outros desapareceram, devo ter adormecido ou desmaiado ou se calhar morri e ressuscitei, se não fosse o impulso, a cadência, o ritmo, era capaz de dizer que já estava do outro lado, morto, no limbo, essa terra de ninguém, talvez da cor da névoa que principia a toldar-me a vista. Não tenho tempo a perder, escrever é uma urgência, foi sempre uma urgência, viver e escrever, escrever e morrer, a escrita e a vida, dizia o outro, a morte e a escrita podia eu dizer agora, mas não, apetece-me escrever uma carta de amor, a carta que mil vezes comecei e não acabei nunca, para dizer a verdade não sei ao certo ara quem. Será que quando se escreve se escreve para alguém? Sei que tenho um recado, mas não sei qual, está dentro de mim mas não sei ao certo o que seja, é possível que o recado seja só isto, pegar na caneta e escrever, uma palavra, outra palavra, a cadência, o ritmo, não há outro recado senão este, o roçagar da pena no papel, seria até interessante molhar a caneta no próprio sangue, mas não, ia estragar a estética da escrita, gosto da tinta azul, azul no branco, essa é a escrita, essa é a cor. Macacos me mordam se sei onde estou. Havia uma guerra, lembro-me. Havia uma guerra e eu tenho uma ferida. Quem foi que disse que há guerras que não acabam nunca? Sinto um formigueiro nos dedos , não sei se de morte, não sei se de escrita. Preciso de escrever, acabar a carta que não cheguei nunca a terminar, tentar perceber de uma vez por todas para quem é, um endereço, um nome, um lugar. Ou talvez não seja preciso. Basta escrever. Amanhã, se por acaso alguém ler o aerograma, dirá por certo: uma carta para ninguém.
De certo modo terá razão. Quem escreve, escreve para ninguém. Ou pelo menos não diz, não quer, não sabe para quem escreve. É uma cadência. Cá está: a flauta secreta das palavras. Começa a anoitecer. Tenho de apressar-me, desta vez não posso deixar de acabar a carta, o aerograma começa a ter um rosto. Amanhã dirão que a carta que escrevi é para ninguém. Mas eu sei, finalmente sei, para quem é.
In O Quadrado e Outros Contos