Para quem tiver amigos especiais, de quem queira falar, sobre quem queira falar, a quem queira falar.
LYDIE
Aqui há uns anos, penso que três, arranjei uma nova amiga. Nova, por ser recente, bem entendido, pois a idade já era avançada, àquela data tinha 85 anos! Mulher espantosa, de seu nome: Lydie, uma vez que é francesa.
Enquanto eu saboreava um maravilhoso gelado de limão do Santini encostada ao meu carro mal estacionado, vi aproximar-se uma senhora que se impunha quer pela dignidade do seu andar, quer pelo bom gosto do seu trajar. Saia, t-shirt, mala e sapatos azuis de um azul bem escuro e bonito, com pequenos toques de dourado aqui e ali, nos dizeres da t-shirt, na aplicação dos sapatos, no fecho da carteira, no colar e nos brincos. Bom gosto mesmo. Distinção é a palavra que melhor a qualifica. E eu fiquei presa a ela observando-a e sobretudo, apreciando-a. Sempre gostei de apreciar o que é bonito e ela, não sendo uma mulher bonita era, sem sombra de dúvida, agradável de se contemplar.
Quase a terminar o meu gelado vejo-a regressar da estação de Correios e atravessar a estrada num local nada próprio. E não é que se começou a desintegrar ali à minha frente!? Caiu estatelada no chão sem se conseguir perceber o porquê daquele cair. Talvez a osteoporose... Fiquei siderada e não reagi, mas quando comecei a ver os carros a não pararem fazendo-lhe razias monumentais, assustei-me e assustei-me ainda mais quando vi algumas testemunhas oculares aproximarem-se dela mandando palpites e querendo tomar medidas, cujo resultado final não era evidente que fosse positivo para a senhora. Aproximei-me. Tal como a populaça que por ali pululava resolvi tomar uma medida: levantei-a, a custo pois não era propriamente magrinha, tentei tirá-la do meio da estrada e levá-la para o passeio ─ soube mais tarde que não deveria ter tocado nela e devia tê-la deixado onde estava ─ desmaiou duas vezes ao percorrer esses escassos metros.
Consegui que me dissesse o telefone de um familiar para eu entrar em contacto, todavia só me respondia um atendedor de chamadas e ao fim de algum tempo com ela, claramente, a perder o domínio sobre si própria lá chamei uma ambulância para a levar para o hospital. Como ela estava sempre a desmaiar e os bombeiros não me estavam a inspirar grande confiança não ficaria descansada em deixá-la seguir sozinha e fui atrás da ambulância. Chegados ao hospital, pejado de gente! foi a cegarrega do costume e eu cada vez menos descansada. Quatro ou cinco horas mais tarde o veredicto estava definido: partira o colo do fémur e teria de ser operada, mas não se sabia nem quando, nem onde … Enfim, a saga estava longe de terminar. Pus-me em campo e contactei um ortopedista meu conhecido que logo se disponibilizou em ajudar e propôs que ela seguisse para um hospital da especialidade onde seria impecavelmente tratada. Expus-lhe a situação, todavia ela em vez de ficar descansada só quis saber com quantas pessoas teria de partilhar o seu quarto após a operação. Quatro expliquei-lhe eu após, mais uma vez e vencendo uma certa vergonha pelo incómodo que estava a causar, contactar o ortopedista. «Não vou» respondeu-me ela com assertividade e sem deixar qualquer margem para dúvidas. Boquiaberta aguardei as suas instruções e lá foi transferida para um hospital particular a uma hora de distância. Voltei a seguir a ambulância que a transportou, pois não conseguia entrar em contacto com ninguém da sua família. Foi operada nessa mesma noite às quatro da manhã e eu, menti dizendo que era da sua família, por ali fiquei pensando nesta realidade das pessoas de idade que estão sós e não têm quem as acompanhe num momento de aflição.
Correu tudo lindamente e era vê-la charmosíssima com o médico com quem falava em francês, pois este tinha um excelente domínio daquela língua. O problema agora era a família que não aparecia e eu aflita a ter de dar assistência à minha família.
Ao longo da sua recuperação quer no início numa clínica, quer mais tarde já em casa a fazer a fisioterapia ─ que ela fez com uma tenacidade e persistência invejáveis ─ continuei a visitá-la pois tendo nascido em Nice na segunda década do século vinte, era como um livro de História ao vivo, relatando a sua infância e mais tarde a adolescência durante a II Grande Guerra. O que mais me encantava nas suas histórias era quando ela falava do seu marido, o português que conhecera em Vichy aos vinte e tal anos de idade e a levara a abandonar a sua terra natal e os seus pais, não sem algum esforço pois era filha única. E partiu com ele nos anos cinquenta para a Covilhã. Da Côte d’ Azur para a Beira! Fez-me descrições fantásticas da tristeza que sentia ao ver as portuguesas vestidas de negro a abandonar as fábricas ao som da sirene, como corvos negros e tristes na hora do regresso a casa, do frio que a invadia e da vida espartana que passara a ter. Tudo por amor àquele homem o qual, muitos anos mais tarde, já a viver na linha do Estoril a ia esperar à estação de comboio e a fazia tremer de alto abaixo.
Ao longo destes quatro anos desenvolveu-se entre nós uma amizade e um carinho que não é comum. Ela faz-me mesmo muita falta, gosta de mim, fica visivelmente feliz sempre que me vê e chama-me o seu anjo da guarda. E é evidente que eu gosto disso.
Entretanto a minha vida sofreu algumas reviravoltas e quando ela percebeu que eu andava mais atribulada perguntou-me: «Ó Marie, diz-me lá, em que eu posso ajudar?». Foi então que lhe pedi que rezasse por mim, pelos meus filhos e pela minha família. Que não se esquecesse de rezar pois eu estava a precisar das suas orações. «Ó Marie…» suspirou, « Eu não perrcebo nada dessas orrações dos porrtugueses, Marie, mas uma coisa eu lhi digo: A Marie está parra semprre presa no meu coração, como o meu marrido.» Eu dei comigo a pensar que jamais ouvira uma declaração de amor tão bonita como aquela!
A Lydie parte hoje, mais uma vez, para a França e eu ontem consegui ir dar-lhe um beijo de despedida pois lá ficará dois meses, lá festejará os seus 89 anos e, por razões óbvias, sempre que me despeço dela nunca sei se não será a última vez que a vejo. Quando nos abraçámos disse-me: «Para o ano, nos meus 90 anos, ou fico cá ou a Marie vem comigo.»